quarta-feira, outubro 31, 2007

Influências da catedral

Falei que La cathédrale engloutie é das minhas preferidas. É das minhas preferidas entre tudo, não só entre as obras de Debussy.

Tomei contato com ela quando tinha 16 anos. Tinha já tocado algumas peças do Children’s Corner, sem dúvida menos bem do que desejaria e desejava. Por isto a experiência com La cathédrale engloutie e a quinta peça do Children’s Corner, chamada The little shepherd, se sobrepôs em alguns aspectos. Claro que são, e eu sabia, composições completamente distintas. Mas havia algumas semelhanças nelas.

A semelhança estava na atitude para as tocar, especialmente para as tocar em público. Habituado quase que exclusivamente ao ambiente e à atmosfera de apresentações de escola de piano, com inúmeros alunos de repertório e nível muito variável, eu tinha ainda uma experiência um pouco pobre no que se refere a tocar em público e não simplesmente cumprir as duas ou três peças programadas para aquela audição, passando pela situação de modo mais ou menos tenso e desejando que acabasse logo – ainda que, depois de tocar, sempre tivesse vontade de voltar e tocar mais.

Percebi logo que para tocar tanto uma como a outra peça das quais estou falando a atitude devia ser diferente. Eu devia me esquecer do tempo. Porque elas são lentas, muito contemplativas, e como se poderia tocar isto de modo burocrático ou com pressa?

Esta atitude nova me beneficiou muito em relação à idéia de tocar em público e me influenciou definitivamente.

Antes eu havia tocado duas peças, a propósito brasileiras, que eram uma espécie de preparação para isto, também: uma Lenda sertaneja (número 8, eu acho) de Francisco Mignone e Arabesk de Amaral Vieira. Esta última tinha andamento um pouco mais movido (embora eu tenha descoberto há poucos anos que eu tocava mais devagar do que o supostamente correto), mas a peça de Mignone era mais lenta e devia ser muito expressiva. Lembro-me de que gostava de ter que ser expressivo. E, no caso, triste. Mesmo o Arabesk não é propriamente alegre.

Portanto, foi nesta época que passei de cumpridor de programa para alguém que tentava tocar algo expressivo, mesmo em público. E que tomava, se necessário, o tempo do público. É engraçado como isto é básico, mas não me esqueço de como aconteceu, e é o que estou contando aqui. Mas para um menino de pouca idade pode ser necesário explicar, ou induzir, ou encorajar, ou esperar que descubra por si, já que as circunstâncias impelem a esta descoberta.

Se um acorde tem que durar dez segundos, que dure dez segundos. Afinal, eu sou apenas um aluno ou estou também tentando exprimir alguma coisa? E, entre outras coisas, manter ainda um tempo de “espera”, assim que a peça tenha terminado – o que, há poucos dias, li como sugestão num blog de um instrumentista americano de cujo nome já me esqueci (e de cujo instrumento também já me esqueci)...

Por estes motivos todos é que julgo muito importante tocar com freqüência em público (não necessariamente em “situações sociais”; contra o que, a propósito, Schumann adverte). O jovem, especialmente no interior, que toca duas vezes por ano em público, cresce menos do que poderia.

Mas, passando à influência que isto teve sobre mim, um dos aspectos sem dúvida foi o do tempo; não só duração mas também andamento. Um ano e meio depois, em Novembro de 1998, eu estava escrevendo já acordes muito lentos, o que devo também a outras influências de que falarei em outra ocasião.

Provavelmente tenha havido também alguma influência harmônica. Mas eu já vinha mudando o vocabulário muito atonal que eu usava antes. Na verdade, mesmo quando era muito atonal apareciam às vezes coisas reminiscentes de tonalismo, ainda que fosse uma tríade. Até nas composições mais tenebrosamente dissonantes isso acontece.

O principal foi o que aprendi com a atmosfera daquelas duas peças, La cathédrale engloutie e The little shepherd. A influência é definitiva e, de modo geral, continua até hoje, tendo-se somado a outras influências e interesses musicais ou extramusicais, das quais também quero falar depois. Em resumo, elas são o minimalismo, a espiritualidade e a música sacra.

segunda-feira, outubro 29, 2007

A catedral submersa

É um pouco espantoso, de certo modo, descobrir que no prelúdio La cathédrale engloutie existe não uma mudança, mas duas mudanças de andamento que não vêm anotadas nas edições impressas dos prelúdios de Debussy. Um pouco do espanto vem do fato de só agora eu descobrir isto, depois de alguns anos em contato com esta peça que é das minhas preferidas.

Precisamente os compassos de 7 a 12 e de 22 a 83 devem ser tocados duas vezes mais rapidamente do que o andamento precedente.

E então eu pensei nas mais ou menos inúmeras vezes em que toquei esta peça e, ao chegar o compasso 7, continuei no andamento, contando dois pulsos para as mínimas... e, para dizer a verdade, achando tão bela esta diminuição do andamento.

Numa aula de análise Sílvio Ferraz disse que temos aí monges, nesses compassos de 7 a 12. Temos mesmo. Temos até sinos, conforme aprendi na mesma aula. Do compasso 5 até o 13 o sino toca doze vezes, como se pode verificar com clareza. Os sinos aqui são um mi em três oitavas. E os monges são sem dúvida monges de Debussy. Ele não escreveu nenhum pastiche de canto gregoriano para este trecho.

E justamente estes monges é que cantam com o dobro da velocidade escrita, ou melhor, as mínimas desta parte valem o mesmo que as semínimas até o compasso 6. E realmente faz sentido. Tocar como antes não é mau, admito, talvez porque já esteja acostumado. Mas tocando no andamento que descobri ser correto os monges realmente cantam, a melodia é mais fluida, como pede a indicação doux et fluide, doce e fluido, que está na partitura.

Antes que me esqueça, sabe-se que é para ser assim porque há uma gravação em piano de rolo feita pelo próprio Debussy. E é assim que ele toca nela. Ainda não ouvi, será difícil obter?

Falei ali acima que outro trecho também deve ser mais rápido, compassos de 22 a 83. Ou seja: isto inclui o grande tema em tríades paralelas... e não só na sua aparição grandiosa em fortíssimo, mas também na sua roupagem submersa, mais perto do fim, a partir do compasso 72.

Aquelas doze badaladas do sino acontecem de novo, embora no grave. Nos compassos de 28 a 46 há doze oitavas graves, sendo as sete primeiras em meio ao tema, na nota dó. As seguintes vão descendo: si bemol e lá bemol, como sol sustenido, em que começa uma parte nova em que os monges cantam novamente, mas agora mais graves.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Brincadeira com livros

Recebi do amigo Cláudio Téllez as regras para uma brincadeira com livros. Então transcrevo aqui a frase que encontrei:

Bars 63-77. A sentimental song, interrupted twice by motifs of the second material.

O livro é The piano works of Claude Debussy, de E. Robert Schmitz. Não sei se pode explicar, mas este trecho faz parte de uma descrição de Minstrels, última peça do primeiro livro de Préludes.

Não estava tão próximo assim de mim, mas abri o armário e peguei o primeiro livro, o que estava mais por cima por outros.

Segundo as regras devo transmitir o jogo para outros cinco blogs. Escolho, portanto, o Evandro (aqui ou aqui), a Sue, a Clara, a Rebeca e a Roma.

Seguem as regras para quem quiser participar da brincadeira:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);

2ª) Abra-o na página 161;

3ª) Procurar a 5ª frase completa;

4ª) Postar essa frase em seu blog;

5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;

6ª) Repassar para outros 5 blogs.